31 de janeiro de 2012

Os Descendentes e o egoísmo




Vejo cinema como puro entretenimento. Por isso, não me julgo apta a fazer resenhas e críticas de qualquer filme que seja. Nesse final de semana, porém, assisti a um lançamento que acho que vale trazer para cá, para viajar um pouquinho em possíveis reflexões.

Ganhador do Globo de Ouro de 2012 na categoria Drama - e, com isso, um dos favoritos à disputa do Oscar no dia 26 de Fevereiro - o filme Os Descendentes, que estreou no circuito nacional no último dia 27 de Janeiro, é uma daquelas histórias feitas exatamente "na medida". As emoções e reações passadas ali não são nem demais (a ponto de parecer um melodrama mexicano) e nem de menos (como se fosse um filme muito cult no qual as coisas mais absurdas do cotidiano são tratadas de forma blasé). Ele consegue emocionar, mas sempre dentro de uma linha de equilíbrio firme e segura. Pelo menos, foi isso o que meu pouco conhecimento cinematográfico me fez achar.

Além desse tom equilibrado, o que chamou a atenção na história foi a abordagem bastante real e profunda de como as pessoas lidam com aquilo que sentem vontade de fazer versus aquilo que seria mais correto fazer.  Na trama, George Clooney (em ótima interpretação, como sempre), vive um advogado que, de repente, se encontra em um grande drama familiar: sua mulher, após sofrer um acidente de lancha, entra em coma profundo, e cabe a ele cuidar, sozinho, das idas e vindas ao hospital e da administração do cotidiano das duas filhas, que competem entre si nos quesitos revolta e má educação. Tudo isso tendo como cenário uma das mais belas ilhas do Havaí - que, como a própria introdução do filme explica, não é só aquele paraíso de ondas, surfe e de dançarinas o tempo todo.

Esse enredo, que por si só já é dramático, ganha um tom mais próximo do real no desenrolar das cenas, quando o personagem e sua família são obrigados a lidar com problemas e situações escondidas por trás do silêncio do coma da esposa/mãe. Resgatar sua autoridade de pai, conciliar as obrigações profissionais, centralizar um processo de venda de um grande terreno familiar e, ainda por cima, lidar com a surpresa e o choque de saber que estava sendo traído são alguns dos grandes desafios que o protagonista tem pela frente.

Essa última adversidade, na minha opinião, é uma das coisas mais bem trabalhada de Os Descendentes. Não vou ser a chata que conta o filme para quem está na fila de espera do cinema, mas vale comentar um pouco a postura do personagem. Ao descobrir a traição, passada a revolta e a indignação inicial - e ao se ver impossibilitado de questionar as razões e motivos com a sua própria esposa em coma - o protagonista deixa de lado aquele que seria o impulso inicial de todos: saber por quê a esposa fez aquilo e onde ele errou para merecer a deslealdade.

Em vez disso, ele se prende a detalhes mais importantes naquele contexto de situação: descobrir se a esposa amava o amante e, diante dessa confirmação, partir em busca de seu rival para dar a ele o direito de saber que aquela mulher, com quem ele conviveu nos últimos tempos, estaria, muito provavelmente, nos seus últimos momentos de vida. O conflito entre a raiva e a obrigação de respeitar os sentimentos e as vontades alheia é retratado no personagem com uma beleza e simplicidade que impressiona. Não apenas impressiona como nos leva a pensar o quanto estamos distantes dessa evolução de pensamento, que consiste em priorizar os desejos e vontades do outro - ainda que isso signifique nossa rejeição ou frustração. E, mais do que isso, como o filme também mostra lindamente: o quanto quem pensa dessa maneira é julgado, criticado e tachado de idiota e fraco.

Por esse exemplo de conduta humana - e também pelas belas paisagens do Havaí - Os Descendentes vale o ingresso e as horas de reflexão. Ainda que tudo aquilo - as praias, o desapego e a evolução de comportamento - ainda sejam sonhos bem distantes.

26 de janeiro de 2012

Aquariana e bipolar

Tinha a intenção de escrever um post bem legal sobre o aniversário de São Paulo. Os planos foram atrapalhados pelo fato de eu fazer parte da parcela da população que não pode desfrutar do feriado no dia 25 de janeiro exatamente porque o trabalho nessa cidade nunca pára. E, após trabalhar o dia inteiro, nada mais justo do que brindar à cidade aniversariante em uma mesa (disputadíssima) de um dos bares da Vila Madalena. E assim passou o dia e o post ficou para depois.

Quem é paulistano, seja de nascimento ou por adoção, sabe que não temos o direito de fazer planos. Refiro-me aqueles planejamentos básicos de "vou passar em tal lugar tal dia e em tal horario". Diicilmente você irá. O trânsito, a chuva de verão, o viaduto interditado, o e-mail que você ficou esperando, a fila no posto de gasolina, o metrô que parou por 10 minutos por alguma pane inesperada....Não faltarão motivos para sua vida e seus planos sejam atrapalhadas por uma cidade que tem a petulência de tomar decisões por você.

Assumo que tenho uma relação bipolar com São Paulo. Da hora em que saio de casa até a hora que retorno para o merecido sono, alterno incontáveis sentimentos de amor, ódio, repulsa, admiração, indginação e saturação por esse caos que acolhe mais de 11 milhões de almas que não sabem ao certo para onde vão e o que querem.

Por muitas vezes juro que um dia vou embora para sempre. Chego a maldizer todos os locais e cenários que diariamente somos obrigados a ver e que parecem, tantas vezes, agir em conjunto para contrariar o nosso bom humor. Muitas vezes disse que qualquer outro lugar com mais verde, mais sol, mais silêncio e mais humanismo era mais digno do que aqui.

Assim como aquelas brigas de casais incompatíveis - porem loucamente apaixonados - essa raiva se dissipa após aquela andada sem pretensão na Avenida Paulista, umas pedaladas no Ibirapuera ou no Villa Lobos, uma olhadinha pela janela sob a Ponte Estaiada, umas caminhadas pela Av. Braz Leme (na minha Zona Norte querida) e uma noite de balada na Rua Augusta. Aí, a gente olha ao redor, se envolve naquela sensação de se fazer parte de uma coisa diretamente sua, e não é preciso nenhuma palavra para testar que a cidade é capaz de nos fazer felizes.

É fácil se apaixonar por aquilo que é belo, acolhedor, satisfatório, confortável e tranquilo. Mas gostar daquilo que te maltrata e te exige esforços máximos para ações mínimas é uma prova de amor muito maior. E é esse poder mágico que São Paulo tem sobre paulistanos como eu: o de provocar nosso amor exatamente por seus defeitos, criando uma cumplicidade tão grande que apenas nós - e somente nós - temos o direito de xingar, criticar, atirar pedras e amaldiçoar. Se alguém de fora esboçar qualquer critica mais séria, a defesa está armada e pronta para combater qualquer ofensa.

Porque só o amor (e a insanidade, talvez) faz a gente amar aquilo que nem sempre nos faz bem. E, pior: não querer se afastar jamais.

23 de janeiro de 2012

Maçonaria fashion




Pensem em uma festa fechada e exclusiva, para a qual é necessário que alguém julgue se você é importante e suficientemente digno de merecer entrar. Vamos supor que você consiga passar por essa primeira peneira e acesse esse universo exclusivo. O que aparecerá diante dos seus olhos? Novas portas, também hermeticamente fechadas, para as quais vale o mesmo critério de avaliação da sua posição/ prestígio para liberar ou vetar seu acesso.

Foi essa sensação que tive na última sexta-feira, quando compareci à edição de Outono-Inverno da São Paulo Fashion Week, o mais importante evento de moda do País. Não foi minha estreia nesse universo fashion. Há três anos eu adentrei pela primeira vez o Pavilhão da Bienal e pude observar o evento de um ângulo que certamente poucos tiveram o privilégio: do chão, de barriga para cima, após meu salto ficar preso em um dos buracos que ligava à sala de imprensa ao salão principal.

Acidentes à parte, lembro-me que gostei de conhecer e entender o quê, de fato, era o Fashion Week. Algo interessante (para quem gosta), estressante (para quem ali trabalha) e intrigante (para quem não entende por que um segmento de negócios é embalado por tanta afetação e estrelismo). Acho que sempre fiz parte desse terceiro grupo.

Essa última vista, no entanto, me trouxe uma percepção um pouco diferente - e meio decepcionante - em relação ao evento de moda. Aquilo que já era segmentado está se fechando ainda mais em seu próprio, pequeno e limitado labirinto.

Todos sabemos que a alta costura não é para as massas. Até essa parte, tudo compreendido. Mas não entendo as razões de um evento, que é voltado para celebrar a moda  a beleza, seja fechado justamente para quem vive desses dois ítens. Não basta um convite, uma porta aberta. Uma vez dento da Bienal, você praticamente não pode entrar em nenhum nos estandes e conhecer os espaços montados pelas marcas que ali permanecem. Salvo uma ou outra exceção (vale aqui citar o exemplo do Boticário, que realmente deu um ar democrático ao oferecer cursos de automaquiagem e um make rápido para quem ali passava), os demais patrocinadores parecem incluir em seu plano estratégico a obrigação de fazer com que seus eventuais visitantes sintam-se exclusivos. Sem a pulseirinha colorida, nada feito. Uma exclusividade que, de onde eu vim, também é conhecida como exclusão.

E o mais sarcástico de tudo isso é observar que os poucos lugares que quebram essa regra e abrem as portas para os quase mortais são, de longe, os pontos de maior concentração de fashionistas por metro quadrado. Sobretudo daqueles considerados 'exclusivos', que detém passe livre nos lounges ultra-fechados e não precisariam estar alí, disputando um lugarzinho na passarela com o povo.

Estou há anos-luz longe de entender da lógica da indústria da moda e dos eventos de luxo. Mas não compreendo tanta seleção e excluividade se, no fim das contas, todos se unirão da fila do joguinho para tentar ganhar uma Melissa grátis.

Isso sim é tendência! Em todas as estações do ano.

22 de janeiro de 2012

O recomeço do dragão


Para um blogueiro sedentário, retomar o exercício da escrita é tão cerimonioso que necessita de um marco, alguma data que, por algum significado emblemático, será propícia para fazer seu cérebo entender que é hora de voltar a concatenar as ideias em textos. Mais ou menos como a segunda-feira funciona para o início dos regimes.

No meu caso, não foram poucas as vezes que pensei em desenferrujar os dedos e voltar a ocupar essas páginas com algumas opiniões irrelevantes sobre qualquer coisa. Algo somente para satisfazer a vontade de escrever livremente, sem limite de caracteres e sem um editor te pressionando para fechar aquilo em poucos minutos. Mas, além da disposição, faltava uma coisa fundamental para pessoas preguiçosas como eu: uma boa desculpa.

Perdi o gancho do início de 2012, deixei passar o meu aniversário e estava vendo que atravessaria outros longos meses mantendo a minha vontade de retomar o blog somente no campo das ideias. Até que, neste domingo, de repente, encontrei a muleta que faltava para sentar diante desta tela em branco e dizer ao mundo que voltei. Amanhã, dia 23 de janeiro, começa oficialmente um novo ano no calendário chinês: o Ano do Dragão.

Segundo a tradiçao, será um período de idealização e de concretização de projetos arrojados, grandiosos e também da vivência plena e intensa de todos os sentimentos. Segundo a cultura chinesa, o dragão não tem moderação: é oito ou oitenta, tanto nos momentos de alegria como nos de ódio. E é essa energia de imediatismo, coragem e de impulsividade que deverá reger os nossos dias, até 9 de fevereiro de 2013 (se, obvialmente, os mais tiverem sido imprecisos em seus cálculos).

Para responder a dúvida que já deve esta pairando, eu adianto que o mais próximo que estive da China foi nas inúmeras visitas que fiz ao shopping 25 de março e à Galeria Pajé. Mas, apesar de não seguir e de pouco entender da cultura oriental, acho emblemático ressuscitar esse espaço em um dia de recomeço. Mais ainda quando esse novo período traz consigo essa energia de impulsivade e de concretizações.

Sem mais delongas, é com a desculpa do Dragão que recomeço meu relacionamento com as letras e meu flerte com as ideias daqui para a frente. Não sei de onde virão as inspirações e temas para manter esse blog com o fôlego que gostaria, mas prometo apurar os sentidos para captar nas pequenas (e nas grandes) coisas alguma essência que possa ser decupada em parágrafos e sintetizada em frases de pouco sentido.

Na verdade, acho que a escolha desse dia já vinha sendo plantada desde o final do ano passado, quando escolhi passar a virada de 2012 com um vestido em homenagem ao guerreiro São Jorge (e, claro, seu inseparável Dragão). Tá bom, vai...assumo que a roupa foi só uma desculpinha de corinthiana. Mas espero que, parafreaseando a própria oração do Santo, a preguiça (ou o desânimo) literários, tendo pés, não me alcancem. Feliz Ano Novo!