Ganhador do Globo de Ouro de 2012 na categoria Drama - e, com isso, um dos favoritos à disputa do Oscar no dia 26 de Fevereiro - o filme Os Descendentes, que estreou no circuito nacional no último dia 27 de Janeiro, é uma daquelas histórias feitas exatamente "na medida". As emoções e reações passadas ali não são nem demais (a ponto de parecer um melodrama mexicano) e nem de menos (como se fosse um filme muito cult no qual as coisas mais absurdas do cotidiano são tratadas de forma blasé). Ele consegue emocionar, mas sempre dentro de uma linha de equilíbrio firme e segura. Pelo menos, foi isso o que meu pouco conhecimento cinematográfico me fez achar.
Além desse tom equilibrado, o que chamou a atenção na história foi a abordagem bastante real e profunda de como as pessoas lidam com aquilo que sentem vontade de fazer versus aquilo que seria mais correto fazer. Na trama, George Clooney (em ótima interpretação, como sempre), vive um advogado que, de repente, se encontra em um grande drama familiar: sua mulher, após sofrer um acidente de lancha, entra em coma profundo, e cabe a ele cuidar, sozinho, das idas e vindas ao hospital e da administração do cotidiano das duas filhas, que competem entre si nos quesitos revolta e má educação. Tudo isso tendo como cenário uma das mais belas ilhas do Havaí - que, como a própria introdução do filme explica, não é só aquele paraíso de ondas, surfe e de dançarinas o tempo todo.
Esse enredo, que por si só já é dramático, ganha um tom mais próximo do real no desenrolar das cenas, quando o personagem e sua família são obrigados a lidar com problemas e situações escondidas por trás do silêncio do coma da esposa/mãe. Resgatar sua autoridade de pai, conciliar as obrigações profissionais, centralizar um processo de venda de um grande terreno familiar e, ainda por cima, lidar com a surpresa e o choque de saber que estava sendo traído são alguns dos grandes desafios que o protagonista tem pela frente.
Essa última adversidade, na minha opinião, é uma das coisas mais bem trabalhada de Os Descendentes. Não vou ser a chata que conta o filme para quem está na fila de espera do cinema, mas vale comentar um pouco a postura do personagem. Ao descobrir a traição, passada a revolta e a indignação inicial - e ao se ver impossibilitado de questionar as razões e motivos com a sua própria esposa em coma - o protagonista deixa de lado aquele que seria o impulso inicial de todos: saber por quê a esposa fez aquilo e onde ele errou para merecer a deslealdade.
Em vez disso, ele se prende a detalhes mais importantes naquele contexto de situação: descobrir se a esposa amava o amante e, diante dessa confirmação, partir em busca de seu rival para dar a ele o direito de saber que aquela mulher, com quem ele conviveu nos últimos tempos, estaria, muito provavelmente, nos seus últimos momentos de vida. O conflito entre a raiva e a obrigação de respeitar os sentimentos e as vontades alheia é retratado no personagem com uma beleza e simplicidade que impressiona. Não apenas impressiona como nos leva a pensar o quanto estamos distantes dessa evolução de pensamento, que consiste em priorizar os desejos e vontades do outro - ainda que isso signifique nossa rejeição ou frustração. E, mais do que isso, como o filme também mostra lindamente: o quanto quem pensa dessa maneira é julgado, criticado e tachado de idiota e fraco.
Por esse exemplo de conduta humana - e também pelas belas paisagens do Havaí - Os Descendentes vale o ingresso e as horas de reflexão. Ainda que tudo aquilo - as praias, o desapego e a evolução de comportamento - ainda sejam sonhos bem distantes.


